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A saúde pública na visão de um jogador de poker!

E aí galera, tudo beleza?

Por aqui graças a Deus esta tudo bem mas poderia não ser desta forma. Este final de semana foi meio turbulento com o acidente do meu irmão Adriano Akkari.

Na sexta feira eu estava acordando pronto para ir para o Win Dogs aqui em Alphaville, meu novo projeto voltado para cães que esta em vias de terminar a reforma e já mentalmente focado para depois partir para o BSOP SP jogar o dia 1A do Main Event quando meu telefone tocou, era a minha esposa com aquele tom de voz que a gente já percebe que deu merda.

Ela toda assustada dizia que era para eu ligar urgente para um amigo nosso pois meu irmão havia sofrido acidente na Estrada dos Romeiros, caminho de Alphaville para Cabreúva, e que estava no hospital de Pirapora do Bom Jesus. Que ele estava bem mas que era urgente que eu ligasse. Bom, a merda estava armada certo? Quando a mensagem chega deste jeito é porque a coisa não foi nada leve e a pessoa não esta com o jeito certo para te contar tudo.

Meu parceiro Chico, que é sócio no Win Dogs, passou na minha casa e fomos direto para Pirapora, 25 minutos aqui de casa. No caminho já fui tentando ligar para o Adriano na esperança que ele atendesse e mostrasse que a coisa não havia sido tão séria. Depois de umas quatro tentativas ele finalmente atendeu. A voz era de quem estava mal mas já era melhor do que o que a nossa imaginação cria, é sempre melhor falar com a pessoa direto. Ele dizia que tinha acontecido um milagre de escapar da morte, que estava com muita dor no pescoço e nas costas além de ter muitos cortes nas pernas mas que em geral estava bem.

Chegando no hospital já fui direto para a enfermaria mas é aí que realmente começa a razão principal do meu artigo.

É incrível como o povo brasileiro é mal tratado. Nossos governantes definitivamente não estão nem aí com a situação do povo. O hospital não tinha o pior prédio possível, era até um prédio decente, a construção em si eu digo mas sem nenhuma estrutura, nada, faltavam máquinas para exames, salas cheias, recepção precária, tudo o que dependesse de verba, de dinheiro do governo era precário. O hospital tinha apenas uma coisa fantástica, o ser humano!

Incrível como cada vez mais eu vejo gente ruim nesta vida, eu conheço casos de maldade, de inveja, mas como cada vez mais eu acredito que o ser humano é algo bom por natureza. Mesmo eu vendo tanta coisa ruim, não consigo me desprender da ideia de que todos somos do bem e o nosso ambiente e condições que vivemos alteram esta forma natural que nascemos para em alguns casos transformar o ser humano em algo do mal.

No hospital tive contato com três pessoas, Dr Claudio Albuquerque, e duas enfermeiras, Daniela e Fabiana. Nas condições precárias do local, os três conseguiam manter um ótimo atendimento, com bom humor, com carinho, com dinamismo nas tomadas de decisão.
Eles jogavam poker na verdade, um poker da vida!

Olhavam a situação de equidade de cada decisão que deveria ser tomada naquelas salas lotadas e colocavam na balança correrem riscos, estes riscos sendo comprados eles sabiam que poderiam colher frutos em um futuro bem próximo ou gerar catástrofes.

Se aparece um paciente com o braço quebrado e gritando ele é prioridade, pelo menos de 2/3 da força humana do hospital, mas ele é prioridade até que apareça algum com uma facada, aí transferisse 1/3 do paciente do braço quebrado para o da facada, e entra em campo o outro 1/3 que estava cuidando da burocracia. Eis que quando aparece um com infarto, tudo muda, o do braço quebrado já entra na fase do sem equidade nenhuma, no momento só vale a pena atender 2/3 o infartado e 1/3 o “facada”, e as variáveis continuam a surgir. De repente um tio de 98 anos deitado na maca começa a gemer, a força inteira humana do hospital composta por 3 pessoas corre para a cama dele, tenta conversar, ele não responde onde tem dor, ninguém sabe o que esta acontecendo direito mas dá para ver na cara do médico que a decisão mais EV é deixar de lado o tio de 90 e poucos anos, se é que você me entender, e atender os jovens de infarto e facada. Até aí parece tranquilo, continuam 2/3 e 1/3, até aparecer um menino com overdose quase empacotando, agora não tem saída, é 1/3 1/3 e 1/3.

Nesta hora o meu irmão já faz parte de um conjunto de variáveis que nem entram nas tomadas de decisão, e com razão, ele não esta para morrer, continua deitado em uma prancha que retirou ele da estrada pelo SAMU, depois de ter capotado três vezes com uma Santa Fé e parado na beira do Rio Tiête mas de fato, eu concordo, ele não deve ser atendido agora, talvez nem depois.

Quando tudo parece muito claro, são 5 pacientes -EV, três funcionários sendo apenas um médico para atender, e três pacientes que necessitam de atendimento urgente, naquele momento, sem poder esperar nem 10 segundos, aparecem mais 7 pacientes no mesmo estado, para morrer, e agora?

Mesmo quando não existe mais tomada de decisão de equidade positiva, mesmo em se tratando da vida de pessoas, os três ainda continuam atendendo bem, respondendo perguntas, com os olhos arregalados, focado, sem perder 1 segundo a mais com ninguém mas trabalhando a força total, é incrível! Quando no apíce do meu conhecimento de tomadas de decisão de risco achei que eles não tinham mais saída, de repente eles começam a administrar aquela situação toda com maestria, o que eram 10 para morrer já está virando 8, dois estão a salvo, e bummm de repente aparecem mais 3. Pqp, como estes caras conseguem?

Chega uma hora que o motorista da ambulância tá levando gente pro Raio X, a recepcionista tá respondendo dúvidas técnicas do parente do drogado, o tio quer levantar da cama mas toma um tombo e quem segura é a mãe do da facada e o menino de 19 anos com infecção intestinal esta defecando de 2 em 2 minutos no meio desta bagunça toda e mesmo assim, lá estão os três, cuidando de tudo, medicando quase todos, e não deixando ninguém morrer.

A porradaria rolando e o tal do Dr Claudio, um menino ainda, de uns 25 anos imagino eu, mas um verdadeiro leão, comandando aquele hospital inteiro sozinho naquele momento, vem me explicar que meu irmão tem risco de ter quebrado a vértebra e que por isso não poderia fazer o Raio X em pé, que é como a única máquina daquele hospital consegue fazer, e que ele deveria ser transferido para um outro hospital maior, de Barueri ou Carapicuíba, e que isto poderia demorar um pouco. Quando questionado sobre o procedimento, ele explicou rápido a burocracia, que tinha que fazer carteirinha do SUS, solicitar a transferência pelo sistema, e etc etc etc e que mesmo diante daquele inferno todo ele já havia feito tudo isto, e que agora só me restava esperar.

Esperei do meio dia as 16;30, vendo o pau comer, e os três trabalhadores guerreiros não pararem nem por um minuto de  analisar riscos, calcular equidade e tomar decisões, na pró atividade total, pondo suas habilidades para funcionar a todo vapor, sem amarelar, como um grande jogador de poker tem que fazer.

Depois de quase 5 horas eu realizei que além de esta transferência não sair, o mundo estava me mostrando que eu deveria também tomar uma outra decisão. Pessoas chegavam ali em condições muito piores que as do meu irmão e não tinham nem a maca nem o local para ficar, meu irmão estava mesmo era atrapalhando, ocupando lugar de outras pessoas. Mesmo o caso dele sendo para mim gravíssimo, poderia nunca mais andar, diante daquele pandemônio o caso era simples e o melhor a fazer era tira-lo de lá e dar espaço para mais gente.

Eu tinha dinheiro para uma transferência particular, aquelas pessoas que estavam ali nem mesmo sapato tinham em alguns casos.

Solicitei a transferência e ele veio para um hospital particular de Alphaville onde fui muito bem tratado.

Minha maior indignação é com a política pública, como governantes podem tratar o povo desta maneira? A gente ouve falar disto o tempo todo, nos jornais, na tv, mas nada chega nem perto de quando você realmente enfrenta a realidade na própria pele. Como que alguém que tem a capacidade de gerar benefícios para a sociedade, a pessoa que comanda verbas, orçamentos, não enxerga as necessidades de um lugar como este? E não coloca a saúde e educação em primeiro lugar? Um hospital de uma cidade minúscula como Pirapora do Bom Jesus precisa de mais máquinas, precisa ser compatível pelo menos a 10% da vontade que as pessoas que trabalham por lá tem, porque a grande realidade é que estes caras são heróis, heróis de verdade, iguais aqueles que vemos nos cinemas. Só vendo o trabalho deste Dr Claudio, da Daniela e da Fabiana no dia a dia para você ver o quanto o ser humano pode ser maravilhoso. Eles deveriam ter os maiores salários da folha de pagamento pública.

A saída que sobrou para mim é muito fácil, gastar uma grana que graças a Deus eu tinha condições de pagar, e transferir meu irmão para o hospital mais poderoso da região, entretanto, neste momento que estou escrevendo este texto mais 10, 20 sei lá quantas pessoas estão dando entrada naquele hospital, e os Drs Claudios da vida estão lá, analisando quais são as chances de morte de cada um deles, sem nem mesmo poderem fazer exames dignos, e vendo dentro de uma teoria da administração do caos, escolherem quem vão atender, quem morre e quem vive. O pior de tudo é que deve ser tão estressante para estes caras que se bobear quem morre com 40 anos são eles, aí perderemos pessoas maravilhosas como estas.

Pelo que eu vi, Pirapora do Bom Jesus é uma cidade organizada, limpa, me disseram que o novo prefeito vem corrigindo problemas deixados no futuro de forma até digna, mas pelo amor de Deus prefeito, se tiver alguma forma de esta mensagem chegar até você, invista na saúde, prepare seu pronto socorro, contrate mais pessoas.

Isto porque estamos falando de Pirapora do Bom Jesus, e se quisermos falar do Jardim Angela, Heliopolis, Favela do Morumbi, Capão, Itaim Paulista, e por aí vai, quais devem ser as condições reais destes lugares esquecidos pelo dinheiro público?

Acho que se um dia o Brasil tiver uma chance de mudar de verdade, isto só acontecerá quando nós, que temos um pouco mais de condições, quer dizer, muito mais condições, fizermos alguma coisa e nos indignarmos por aqueles que nem voz possuem. Governantes querem agradar ricos e a classe média, são estas duas camadas que sustentam o país, mas para que possamos desfrutar de alguns benefícios milhões de pessoas são massacradas todos os dias, sendo atendidas feito lixos, os hospitais são apenas um exemplo disto. Somente com a indignação cada vez maior da classe média e alta é que talvez tenhamos 1 out no river.

Quero agradecer do fundo do coração ao Dr Claudio Albuquerque, a enfermeira Daniela e a Fabiana, que foram fantásticos com meu irmão. Quero agradecer também a todos do hospital Albert Einstein de Alphaville, que mesmo tendo todas as condições tecnológicas e estruturais, fizeram um atendimento dos mais carismáticos, dá para sentir ao entrar em um hospital como o Einstein o quanto a equipe é poderosa mas mesmo assim não perdem o carinho e o amor pelos pacientes. A Dra Rose, Milena, Dr André, Dra Tereza, Helio, Silmara, todos que nos atenderam com a melhor qualidade o meu muito obrigado.

Felizmente meu irmão esta bem, vai ficar melhor! Infelizmente ele acabou tendo uma fratura pequena na coluna, mas pelo que a Dr Tereza diagnosticou foi algo bem simples, que somente repouso e o uso de um colete o fará reverter o quadro bem rápido, o que nos deixa feliz demais. Depois de capotar três vezes, transformar um carro daquele tamanho em uma sucata, o pior poderia ter acontecido, mas graças a Deus não aconteceu.

Agora é seguir em frente, hoje tem o 6 max do BSOP, estão todos convidados, vamos nos encontrar lá no Anhembi as 16 horas, tem um torneio bem legal de NL Holdem e depois as 20hs entro em campo no 6 max. Quem não for estará perdendo uma bela história sendo feita no poker nacional, o BSOP está arrebentando! E não esqueça de colocar na agenda que daqui 10 dias tem MasterMinds aqui em São Paulo, se você ainda não vi corre no www.mastermindspoker.com.br e veja tudo que vai rolar gratuito por lá.

Grande abraço galera,

André Akkari

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