E aí galera, como vocês estão?
Por aqui a felicidade é extrema. Estamos em Las Vegas jogando o começo da WSOP. Para quem é jogador de poker profissional ou pelo menos acompanha o esporte sabe o que isto significa. É a melhor época do ano, é a Copa do Mundo mas que no nosso esporte rola todos os anos e não como no futebol.
Alugamos uma casa em 8 pessoas e o clima não poderia ser melhor, todos jogadores profissionais, estamos mantendo uma rotina super saudável, praticando exercícios, comendo bem e principalmente discutindo muito poker. Não existe forma melhor de levar seu jogo para um outro nível que não conversando com bons jogadores, trocando idéias, discutindo estratégias de torneios e mãos profundamente. Estamos fazendo isto, eu, Marcelo Fonseca, Bedias, Leonardo Bueno, Pedro, Moja, por isto estou tão feliz.
Hoje sinto que estou em um dos melhores momentos da minha carreira e da minha vida em si. Lutei muito pelo minha carreira, pelo meu esporte e cada vez mais sinto que o poker alcançou um lugar super saudável no mundo todo e minha carreira não para de evoluir a cada momento. Estou no melhor ano de resultados e o poker no melhor ano da sua história. Eventos bombando, reconhecido praticamente no mundo todo e a coisa só tende a ficar melhor, isto me deixa profundamente orgulhoso e contente.
Entretanto, o assunto que queria levantar para vocês neste blog pouco tem a ver com poker, e sim com a vida em geral. Passei os últimos 10 anos da minha vida praticamente viajando pelo menos 7 meses do ano, uma vida dentro de aviões e quartos de hotéis e sinto que poucas coisas proporcionam tanto experiência como viagens. Experiências de diversos tipos mas a maior delas talvez seja a diferença cultural entre os países e principalmente quando comparamos com o Brasil.
Hoje tive uma experiência no mínimo interessante. Todos viram o show da final da UEFA, nosso orgulho, pelo meu como brasileiro ele é, Neymar, arrebentou com o jogo junto com Messi e seus parceiros e foi com certeza o jogo mais importante da sua carreira e é um pouco sobre isto que me despertou a vontade de compartilhar com vocês.
Fui para o shopping aqui em Vegas comprar uma calça jeans e lá vi dezenas e dezenas de pessoas usando a camisa do Barcelona, dentre elas, pelo menos 50% estavam com o nome do Neymar nas costas. Quando você viaja muito como eu você desenvolve uma habilidade de saber instantaneamente quem é ou não brasileiro e praticamente 100% das pessoas que vi com a camisa dele não era brazucas.
Voltando para casa, fui ver os comentários no meu facebook e no instagram sobre uma foto que postei do Neymar, desejando-lhe toda sorte do mundo e invocando energia positiva para um ídolo nacional, que o é na minha opinião.
Incrível a quantidade de pessoas que se manifestam no Brasil contra este tipo de coisa. É muito grande o número de pessoas que a partir de uma mensagem positiva em rede social, soltam todo o seu lado negativo e monstruoso com mensagens tentando denegrir ou explodir um otimismo ou linha positiva de pensamento. Por que será que isto acontece?
Existe alguma dúvida na cabeça de vocês que o Neymar seja o maior nome brasileiro do esporte na atualidade? Se tem, existe dúvida que seja top 3, ou 5? Se não existe, porque não vibrar e comemorar com o garoto? Porque não exaltar um brasileiro que fez o mundo inteiro vibrar aos 49 do segundo tempo hoje, em pleno sábado, o mundo parou para ver um gol de um brasileiro. Isto acaba com a miséria do mundo? Não. Acaba com a fome do mundo? Não também, mas é pecado vibrar com o sucesso esportivo do outro ou sentir orgulho dos feitos dos seus ídolos? Longe de ser certo?
Mas por que será que no Brasil isto acontece?
Você pode achar que eu esteja exagerando e que isto acontece no mundo todo. Parcialmente sim, acontece, mas não com esta voracidade que rola no Brasil. No Brasil se você levantar a conversa sobre o Pelé, vários vão achar que ele é um merda, o Romário é sem cabeça e agora político o que é xingamento, o Ronaldo um babaca que errou em episódios noturnos, o Rubinho um eterno atrasado, o Guga deu sorte, porra, que triste né? Porque não podemos simplesmente exaltar os nossos atletas.
O Pelé é a porra do maior jogador da história do maior esporte do mundo meu amigo, o Romário massacrou em todos os times que passou, ganhou a Copa de 94 no punho, o Ronaldo ganhou a Copa de 2002 e não tem sossego no mundo inteiro por onde viaja com pessoas querendo tocar no cara, o Rubinho disputou a maior fórmula do mundo, na maior equipe do mundo por anos e anos sempre pau a pau com os grandes, o Guga é o rei de Rolland Garros em um país que não apoia o tênis em absolutamente nada, o Medina é campeão em um esporte que no Brasil todos achavam que era coisa de vagabundo, o Marcelo Melo hoje bateu os irmãos Bryan, invencíveis, que vivem em um país que tem uma quadra de tênis a cada três quarteirões, mas no Brasil não adianta nada disto, você só vira ídolo mesmo quando morre.
O que parece para mim é que quando você morre, você para de gerar inveja, porque você não tem mais como ganhar e sendo assim, as pessoas aceitam que você seja ídolo, afinal de contas, suas vitórias não lhes incomodam mais, afinal de contas você se ferrou certo, você morreu.
Lembro do episódio em que postei uma frase infeliz que “Ronaldo na Copa só existia um!”, infeliz para com meus amigos de Portugal, e ver a força com que eles me atacaram por um lado não foi nada prazeroso, mas por outro lado, a intensidade com que eles saíram para defender um dos deles foi de uma certa forma invejável, devíamos aprender algo com isto.
Ontem na mesa da WSOP conversei muito com 5 americanos e um inglês sobre isto, e pude ver um cheiro, um ar, completamente diferente vindo deles em relação aos seus ídolos. Todos eles falaram bem e mal sobre grandes nomes do esporte nos seus países mas nenhum deles em nenhum momento demonstrou nenhuma faceta de ódio a nenhum grande nome. Podia preferir um a outro, mas nunca falando nada pejorativo ou denegrindo como vemos alguns brasileiros fazendo.
Isto é uma constante em todas as minhas viagens e o mais impressionante é que também é uma constante o sentimento destes grandes nomes em relação a resposta que eles recebem do povo brasileiro em certa parte. O poker me deu isto de presente, conhecer grandes ídolos, hoje conheço o Ronaldo, Neymar, Rubinho, Bruno Soares, entre outros, não sou grande amigo de nenhum deles, talvez seja muito mais fã do que amigo, mas vejo este sentimento quase que em comum entre todos, sentimento de que não adianta o que ganhe ou o que faça, nunca ninguém estará satisfeito e orgulhoso ao extremo das conquistas deles, mas conformados em viver assim.
Sei bem que ninguém agrada todo mundo mas digo que no nosso caso é um exagero este conceito, parece que no Brasil todo mundo desagrada quase todo mundo. Sorte que temos muitos também que pensam diferente, muitos que se orgulham, muitos que vibram com o sucesso dos outros, muitos que até tem inveja mas uma inveja boa, apenas o sentimento que querer estar no lugar daquela pessoa mas não desejar que aquela pessoa não estivesse, de querer o mal de ninguém.
Eu gostaria muito de ser o Neymar, de ter jogado hoje a final da UEFA, mas 0% eu gostaria que ele não estivesse lá, muito pelo contrário, fico muito feliz e orgulhoso que ele estava lá e era brasileiro, era do meu país. É um exemplo para o nosso povo que um de nós pode fazer muito sucesso mesmo vivendo em um país estuprado pelos seus governantes. Um brasileiro que dá certo gera milhares de pessoas com mais esperanças e é isto que o brasileiro precisa. Eu estou em um momento de muito pouca esperança com o futuro político e econômico do Brasil, portanto, feitos de grandes brasileiros me ajudam a acreditar e isto faz sempre uma boa diferença para sermos felizes onde vivemos e com quem vivemos.
O Brasil pode ensinar muito para os outros países, principalmente em levar a vida com alegria, dar abraço, receber pessoas com simpatia, estas são as grandes forças brasileiras mas por outro lado precisa aprender muito também, aprender a ser orgulhoso dos brasileiros, aprender a olhar pelo prisma bom, aprender a colocar a bandeira do Brasil na porta de casa como fazem os americanos aqui na rua em que estamos. Não precisam mandar nossos jovens para guerra para poder nos juntar e fortalecermos o nosso espírito de nação, já vivemos em quase guerra no Brasil, já sofremos com violência, corrupção e outro males, porque não podemos nos unir e vivermos mais coesos nos grandes feitos e alegrias que o próprio povo nos proporciona.
Acho que dividir com vocês isto me faz bem demais, é uma forma de trazer a tona a minha experiência de rodar o mundo jogando poker e este benefício que o poker me deu de conhecer tanta gente grande brasileira e estrangeira. De discutir com vocês os pontos que eu acredito que possa fazer o nosso país melhor.
Parabéns ao Neymar, me deixou orgulhoso demais hoje ver você brilhar, parabéns ao Marcelo, hoje campeão de Rolland Garros, ver o vídeo do último ponto me emocionou demais, e por fim parabéns a você que se orgulha destes caras, pessoas como nós tenho plena certeza que levam o nosso país a um ponto melhor no futuro, não sei ao certo de que forma é apenas a energia que eu sinto.
Amanhã segue a minha luta aqui no mundial de poker, um esporte que ainda engatinha perto dos outros mas que é o meu orgulho pessoal, somos muitos brasileiros por aqui tentando glórias e grandes feitos e vamos continuar a nossa batalha com força total. Sempre apaixonado pela minha familia, pelos meus amigos, pelo meu país, sempre viajando mas rezando para voltar para casa, sempre com saudades do Brasil, sempre lendo mensagens positivas e me incentivando com isto e não lendo ou bloqueando mensagens negativas, é assim que o barco anda e é assim que tem que ser.
Grande abraço galera,
André Akkari
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