Pois é. É triste demais dizer isso, mas talvez seja verdade: a vitória na Copa do Brasil pode ter sido o maior azar dos mais de 100 anos do Corinthians.
Exagero? Vamos aos fatos. Chegue às suas próprias conclusões.
No começo do ano, duas pessoas se aproximaram de mim. Ambas eu não conhecia direito: Carlos e Maurício Chamatti.
O Maurício é irmão de um grande amigo meu, Gustavo Chamatti, fundador e dono do Mercado BTC. O Carlos, até então, eu nunca tinha ouvido falar.
Antes de entrar no caso em si, deixo minhas percepções iniciais sobre os dois. Dois corinthianos doentes. Doentes a ponto de aparecerem com essa ideia maluca chamada SAFIEL. Eu fui quem tentou, por diversas vezes, alertá-los de que, estatisticamente e politicamente, as chances disso dar certo eram praticamente zero. Não me ouviram. Meteram marcha.
Por princípio ético e caráter, o Maurício eu já tinha grandes indícios de ser um cara sensacional. A família dele é sensacional. Empreendedores que enfrentaram o mundo para montar uma operação como o Mercado BTC em um país como o Brasil. Se o poker já foi uma guerra diária para provar honestidade, imagina mexer com o sistema financeiro inteiro. Eles comeram o pão que o diabo amassou e venceram. Para mim, o Maurício era carta branca total.
O Carlos fui conhecendo aos poucos, entendendo sua história de vida. Extremamente bem-sucedido nas empreitadas, corinthiano psicopata, inteligente e, como todo brasileiro raiz, um guerreiro absurdo. Já tinha feito o pé de meia e resolveu, na meia-idade, lutar por uma paixão. A SAFIEL era isso: a vontade de ver um Corinthians diferente, profissional, executivo, competitivo contra os maiores do mundo, com um sistema minimamente popular, mas sem romantismo barato — como ele construiu as empresas da vida dele.
Eu não tinha com o Carlos o mesmo histórico que tinha com o Maurício, mas também me senti confortável com seus princípios e idoneidade.
Eles se aproximaram de mim porque já conheciam o trabalho da FURIA em estrutura, operação e, principalmente, na capacidade de entregar planos sólidos e uma mira cirúrgica em patrocínios. As marcas que atendemos operam em um nível que não chega nem perto do que existe hoje no futebol. Eles sabiam que eu era o maestro disso tudo e, além disso, um corinthiano doente.
Para o plano SAFIEL dar certo, era necessário encontrar mentes conectadas com marketing esportivo, patrocínios e novas formas de enxergar um mercado antigo, engessado e viciado como o futebol.
Se você duvida do que estou falando, olhe as marcas que hoje patrocinam clubes: Tier 2, Tier 3. As grandes marcas não estão nos grandes clubes. Mas isso fica para outro texto.
Como corinthiano, disse a eles que poderiam contar comigo nesse quesito. No que eu pudesse ajudar, ajudaria. Começamos uma série de reuniões. Mostrei o jeito FURIA de viver e operar. Eles piraram.
O que entreguei de intelecto, somado a um esforço 1000x maior deles em todo o resto da operação, virou um documento oficial da SAFIEL.
Ainda assim, eu sempre fui descrente das chances do projeto. Não pelo ímpeto deles, nem pela solidez da ideia, nem pela torcida. Mas porque sou um homem traumatizado.
Sou traumatizado com associações. Sou traumatizado com poder público. Sou traumatizado com a capacidade dessas estruturas se perpetuarem.
O Corinthians é assaltado todos os dias por gente que está lá dentro todos os dias. Não existe manifestação popular que esteja lá todos os dias. E isso faz toda a diferença. As manifestações cansam, perdem força, são ludibriadas por boas notícias. Os ladrões ficam.
Algumas razões simples para o meu descrédito:
– O Corinthians deve cerca de 2,7 bilhões de reais. Paga juros absurdos, com grandes chances de esses juros irem para pessoas ligadas ao próprio sistema (sem generalizar). Se fossem “apenas” 2% ao mês — o que não é, é mais — estamos falando de 54 milhões de reais por mês. Alguém recebe isso. Quem tira esse malandro (ou esses malandros) de lá?
– O Corinthians não é mundialmente conhecido por ser um clube social. Piscina, peteca, bar da torre. É conhecido por ser um clube de futebol. Mesmo assim, o clube social gasta mais de 120 milhões por ano e gera, no melhor cenário, 35 milhões de receita. Um rombo épico anual. Clube social pode ser importante? Pode. Mas a conexão com o futebol é trágica: o futebol paga a diversão de poucos. Isso nunca fecha a conta.
– Quem vende patrocínio, controla finanças e comanda o clube são pessoas eleitas, sem remuneração, sem comissão, sem plano de carreira, sem pressão executiva e sem lucro. O que isso gera? Corrupção. Sempre. Em qualquer lugar do mundo.
– Parte da torcida sustenta uma tese falida: o clube não pode dar lucro, tem que ser “do povo”. Sério isso? O clube sempre vai gerar lucro. A questão é para quem. Ou gera lucro de forma corrupta para poucos, ou via juros abusivos, ou de forma profissional para investidores. Isso é capitalismo. Não importa sua opinião de torcedor.
Quando se elege um presidente, ele tem poder para desviar dinheiro em patrocínios, transferências, camarotes, contratos diversos. E ele é eleito exatamente por quem quer manter a mamata.
“Akkari, mas isso não deveria ser assim.” FODA-SE. É assim. Sempre foi. Sempre será. Espernear não muda a natureza humana.
– Para retirar bandidos de lá, seria necessário exercer pressões e correr riscos que eu, André, não tenho coragem de correr. Tenho família, empresas, pessoas que dependem de mim. Disse isso a eles claramente. Sem um sistema brutal, pesado e ininterrupto de pressão, eu sempre fui descrente.
Mesmo assim, eles meteram marcha. Pararam suas vidas e começaram uma jornada sinistra.
Juntou-se a eles o Eduardo, um cara diferente, com força narrativa, intelecto forte, professor, bem-sucedido. De repente, a SAFIEL começou a ganhar força real: popular, política, incômoda. E, claro, barrada pelos mesmos vermes de sempre.
Tentei abrir caminhos pelo alto escalão. Almoços, conversas. Fui boicotado rapidamente. Quanto maior era minha capacidade de persuasão, mais cedo vinha o bloqueio. Ainda assim, Carlos, Maurício, Eduardo Salusse e outros guerreiros seguem na linha de frente. Isso me enche de orgulho.
E então acontece o inesperado.
O clube mais cagado do planeta — porque, convenhamos, como 2,7 bilhões de dívida viram um título? — é campeão da Copa do Brasil. Só explico isso pela força quase religiosa do Corinthians.
No dia, é festa. Nos dias seguintes, começa a maior catástrofe administrativa da história do clube, na minha opinião.
O combustível dos vagabundos lá dentro chama-se TÍTULO. Ganhou? Mão para o alto. Acaba a pressão. Acaba a urgência de mudança. Valida-se todo mundo: conselheiro, diretor, jogador, técnico, até o gandula. A ressaca silencia a cobrança.
A SAFIEL estava andando. Contra todas as minhas previsões pessimistas, estava andando. O debate estava quente, a pressão alta. Mas ganhamos a Copa do Brasil.
Como gambler que sou, aposto que tudo vai esfriar. As conversas internas ficam mais mornas, os nervos se acalmam, a massa perde tração. O núcleo duro resiste, mas não basta. E o Corinthians volta ao limbo administrativo.
Uma tristeza profunda para quem ama esse clube.
Com baixíssimas chances disso não acontecer, meu coração ainda sonha com uma mudança radical de estatuto, baseada em princípios claros:
– Fim do modelo associativo no futebol
– Separação total entre social e futebol
– Futebol 100% corporativo, com investidores, fundos e lucro
– Participação do torcedor, sem romantismo. Eu não quero que o torcedor comum decida quem vai ser o CFO, eu quero que sim, um conselho formado por caras que vieram das maiores universidades do mundo decidam, e normalmente eles operam por paixão mas por dinheiro. Este é o capitalismo.
– Executivos extremamente bem pagos, com bônus e metas. Um Corinthians futebol pagando os maiores salários do planeta aos seus executivos, com bonus de performance, comissões de patrocínios vendidos, renovados, com tudo claro como se estivesse na bolsa de valores e que um dia pode estar, como o Manchester United.
– Base tratada como investimento estratégico. O futuro financeiro, apaixonante, inclusivo, de mudança de paradigma vem da base. É o investimento mais inteligente que uma empresa teria comandando o Corinthians. Não deixar conselheiros e diretores se beneficiarem de jovens e suas familias desde o dia 1.
– Transparência absoluta, tudo público, tudo auditável. Um modelo de empresa 100% transparente, com acesso aos todas as receitas, despesas, relatório mensais, bimestrais, semestrais e anuais. com justificativas executivas do porque comprou uma folha de sulfite, ou contratou o Memphis, tudo na internet, tudo exposto para ser julgado e analisado pelos sócios investidores.
Conectados à potência que é o Corinthians, esses princípios fariam o clube ser maior que o Real Madrid em menos de 10 anos. Sim, eu acredito nisso.
Eu não conseguiria trabalhar nisso. Estou focado na FURIA e em outras empresas. Mas investiria, acompanharia, escreveria, cobraria e julgaria executivos sem ego nenhum.
Já escrevi sobre isso anos atrás. Nada mudou. Provavelmente vou ler esse texto daqui a 10 anos e pensar o quanto fui sonhador.
E nada vai ter acontecido.
Grande beijo a todos e Feliz Natal.
André Akkari
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